O FATOR COMPLICADOR
(em 5 ATOS)
Esse foi um dos projetos mais interessantes que desenvolvi enquanto trabalhava numa grande indústria multinacional dos setores de gases, ferramentas, grandes equipamentos e produtos químicos, e onde entrou uma questão psicológica e emocional de uma forma muito curiosa.
[1o ATO] O PROJETO DE RACIONALIZAÇÃO DE PROCESSOS PARA A ÁREA DE ESTOQUES DE ÁGUA BRANCA/SP
Depois de ser designado por meu gerente da área de Sistemas e Métodos para liderar este projeto, e ouvir exaustivamente por parte dele as características psicológicas, comportamento e reações do super homem da empresa que eu iria conhecer, lá estávamos eu e ele num frio dia de inverno no bar do Aeroporto Santos Dumont, aguardando a chamada de nosso avião a caminho de São Paulo para a sede da Divisão São Paulo dessa grande empresa.
[2o ATO] A CONVERSA COM O GERENTE DA DIVISÃO
Ao chegarmos, fomos logo orientados a subir para falar com o homem mais importante da empresa, depois do presidente e do diretor comercial, pois SP era sua locomotiva em vendas, pois detinha a maior receita de toda a empresa, e muitos tinham medo dele, pois era um homem grande de personalidade bastante forte, e que flertava com o poder. Depois de ser apresentado por meu gerente a ele, que não usava os sapatos em sua sala (ele tinha mandado comprar um tapete peludo caríssimo que cobria toda sua sala), fiquei calado só ouvindo, por mais de duas horas, ele falar sobre suas vitórias e expectativas com relação ao projeto. Fiquei impressionado diante de tanta segurança e poder.
[3o ATO] O TRABALHO E O RELATÓRIO-DIAGNÓSTICO
Após o levantamento, realizei que o maior problema que gerava atraso no carregamento dos caminhões, não era administrativo, mas operacional. Observei que o chefe da área de estoques arrumava as peças, ferramentas e equipamentos, de acordo com os grupos de materiais, conforme definido pelo CPD em conjunto com a Diretoria de Materiais, e isso atrasava a carga dos caminhões pois os estoquistas tinham que correr de uma estante para outra, em uma área imensa e cheia de ruelas, no depósito. Pedi, então, a listagem de vendas indexada pelos produtos de maior saída. Diante da listagem e de uma simples classificação ABC, realizei que precisávamos fazer um grande remanejamento dos materiais, baseado nos índices de rotatividade de vendas, dos materiais, o que faria com que os produtos de maior rotatividade ficassem mais próximos da área de carga dos caminhões, acelerando assim o processo de carregamento e saída para entrega. Assim, trocaríamos a filosofia de organização por grupos de materiais pela de índices de rotatividade de vendas.
[4o ATO] A APRESENTAÇÃO DO RELATÓRIO DO PROJETO DE RACIONALIZAÇÃO
Depois de lutar muito com a datilografia (que coisa antiga) do relatório com nossa secretária, finalmente, depois de verificar todo o texto e desenhos com muito cuidado, levei-o a meu gerente. Ele leu com muita seriedade, folha por folha, e, ao final, me olhou com a mesma seriedade e disse na minha cara:
- Isso está uma merda!!!
Depois dessa eu não sabia onde enfiar a cara. Ele então me perguntou:
- Ricardo, onde está o FATOR COMPLICADOR?
Fiquei olhando para ele com a melhor cara de idiota que eu já fiz em toda a minha vida. Ele então me disse:
- Isso está muito certinho, não pode ser assim. Lembra quem é o nosso cliente? Aquele "Golias" super poderoso e orgulhoso?
Aí foi que eu não entendi mais nada. Então ele foi mais prolixo e eu sem acreditar no que estava ouvindo.
- Ricardo, você precisa cometer um erro. Este relatório precisa ter uma falha, um deslize. E sabe porque? Porque só assim nós vamos conseguir vender e implantar o projeto na Divisão São Paulo.
[5o ATO] A ENTREGA DO PROJETO AO TODO PODEROSO
Depois de lutar muito comigo, pois sou um perfeccionista insuportável, finalmente consegui incluir no relatório do projeto uma sandice enorme, que meu gerente aprovou e ainda me parabenizou por isso. Chegamos na Divisão, saltamos do táxi, e eu suando num frio de 4 graus centígrados. Ele já nos esperava ansioso, com toda aquela simpatia de quem tinha tudo dominado.
Mandou sua secretária nos trazer suco e biscoitos finos. Então, depois do quebra-gelo promovido por meu gerente, entreguei-lhe o relatório do projeto.
Ele leu com atenção até que parou na página onde estava a proposta-erro, tirou os óculos, pegou sua caneta Parker 51, olhou para mim e disse:
- Isso não pode de maneira alguma, e rabiscou a página do relatório. O cliente jamais pode entrar em contato direto com o depósito. Isso geraria um tumulto enorme no depósito. O resto tá muto bom e vamos implantar.
Eu olhei para meu gerente, que ria por dentro enquanto eu suava em bicas, e aprendi mais uma lição em minha vida.
***
2 comentários:
Orgulho + insegurança é a combinação perfeita em um gerente pra quebrar empresas. O q consola é que no mercado atual não há mais muito espaço pra estilos de gerência como esse.
Orgulho + insegurança é a combinação perfeita em um gerente pra quebrar empresas. O q consola é que no mercado atual não há mais muito espaço pra estilos de gerência como esse.
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